Despedida do Coisas

3 jun

Sou cheia de firulas, tendo a fazer tudo do modo mais difícil. Quando eu e meu namorado fomos morar juntos (em dezembro de 2010) fizemos dois chás de panela – um em Beagá e um em São Paulo – este último no dia do meu aniversário do ano passado. Para organizá-los resolvi fazer este blog aqui. Assim escreveria um texto sobre cada objeto da casa nova. Veja só como gosto de coisas trabalhosas!

Era para o blog ter saído do ar logo em seguida. Mas me esqueci de despublicá-lo. Renné me lembrou, mas daí eu disse “agora não dá mais, terei que esperar outro momento adequado ao fechamento de um ciclo”. Ele disse – isso é TOC. Pode ser. Eu chamo só de firula mesmo. Me apego e sofro com mínimos detalhes.

Com a saída do coração gigante de nossa casa eu entendi que estava se fechando um ciclo. E finalmente encontrei a desculpa que precisava para encerrar este bloguito aqui. Acho muito divertido o nome dele, por isso talvez volte a usá-lo para outra proposta. Coisas de Sílvia Amélia é o mesmo que as firulas de Sílvia Amélia.

Nossa casa já está cheia de coisas. Faltam outras, sempre vai faltar algo e isso não é ruim. Somos felizes. Isso eu escrevo com medo. Felicidade absurda a gente quer guardar como um segredo lindo. Deus conserva – se diz lá em Padiminas.

“Mas as coisas findas muito mais que lindas, essas ficarão.” Carlos Drummond de Andrade

Metáfora do amor

3 jun

Eu tinha um grande coração. Ele ficava estendido na sala. Sentava em cima dele para ver a novela bem de perto. Sou míope. Deitava para ler revistas. Amo revistas. Um coração vermelho, pesado, confortável. Cabia quatro amigos sentados nele ao mesmo tempo. Meus amigos que o conheceram, amaram. Ou bem fingiram, para me agradar.

O coração foi peça cenográfica de uma matéria de GLOSS. Era tema sobre pessoas que tinham pavor de namorar – ou foram vítimas de apavorados de relacionamentos. Fizemos as fotos das meninas sendo atropeladas por ele.

Na época eu estava juntando com meu namorado querido, tinha recém feito este blog, sobre os nossos dois chás de panela. A casa era vazia de móveis, achei uma boa levar o coração gigante para servir de sofá. Mas namorado não gostou muito da idéia. Até guardou no freezer. De vez em quando dizia “amor, você me apronta muitas… bláblá trás coração gigante para casa sem avisar… bláblá”.

O coração rasgou no transporte da vinda. Vazou intestinos de espuma. Costurei uma parte, estanquei o resto com folhas de revista. Funcionou. Todo entregador de pizza fazia cara de curiosidade para aquele gigante coração na sala. Namorado tinha um pouco de vergonha, eu não. Até me imaginava com um programa de tevê. Os convidados sentariam no coração para falar coisas do coração.

Agora ele foi embora. Tenho impulsos ainda de sentar sobre o vermelho. A casa aos poucos vai mudar, ocupar aquele vazio e se adaptar a uma outra decoração que nem sei. E o coração gigante ficará como uma história pra gente contar. “Quando fui morar com meu amô, o sofá era um coração enorme…” No fundo acho que eu e ele temos ainda um grande coração. Isso chama metáfora. ❤

é este aê!

De passagem

11 fev

Passo minhas roupas no coração. Só as muito amassadas mesmo. Tenho um coração gigante no meio da minha sala. Esquento o ferro e passo sobre ele o look do dia. Renné passa as roupas dele em cima da cama, várias peças de uma vez. Ele usa camisetas impecavelmente passadas. Acho bonito e não consigo imitar.

Renné queria muito uma tábua de passar roupa. Era seu sonho – um deles. O meu era uma tábua de passar com uma profissional da passação junto. A gente sempre fazia piada com isso. Do tipo “quando ganharmos muuuuito dinheiro, vamos poder comprar uma tábua de passar”. Finalmente este dia chegou. Não o da grana, mas o da tábua.

E ela chegou à nossa casa junto com o ventilador. Podemos agora esquentar perto da tábua e esfriar com o ventilador. Nossa, me deu uma vontade louca agora de falar em voz alta a palavra “talba”.

talba de tiro ao álvaro

Ventila a dor

11 fev

Acordei hoje determinada a comprar um ventilador. Eu e Renné não dormimos bem com tanto calor. Fica aquele desconforto, dá pesadelo.

Acordamos tarde. Como de costume, Renné foi para a cozinha e eu para a rua.

Comprei um ventilador preto (achei chique!) e silencioso (dá pra dormir com ele) e com espaço para repelente de mosquitos (Renné odeia mosquitos). Na loja fiquei viajando se o próprio vento era ou não já um repelente. Mosquitos voam em meio à ventania?

– Olha a ascensão da nova classe média! É o que sempre exclamo para Renné quando adquirimos um novo item de conforto.

O ventilador já está aqui funcionando, hum…

olha que lindão!

Espelho, espelho meu

11 fev

Não tenho o costume de me olhar no espelho. Não como a maioria das mulheres. Nem como a maioria dos homens também. Para mim a função de um espelho sempre foi  conferir de manhã se tem ou não remela nos olhos depois de lavados.

Moro com o Renné há um ano. Neste tempo sobrevivemos com um espelhinho minúsculo, colado numa cartolina. Este espelho (em que não dá nem para ver o rosto todo) veio na tampa de uma caixa qualquer que chegou à redação. Colei no banheiro para ser o nosso espelho provisório, mas passou um ano e ele ainda estava lá. E era o único da casa. O Renné – como gente normal que é  – se incomodava mais com isso do que eu.

Só que no fim do ano eu passei a me olhar mais nos espelhos do mundo. Isso porque comecei a aprender a me maquiar. E maquiagem é tarefa que se realiza em frente a espelhos. Tive o desejo de ter um espelho melhor, mas não quis isso o suficiente para tomar a atitude de comprá-lo.

Então há duas semanas recebi em minha casa visitas muito queridas, Bel e Gabriel, Dalila e Daniel. As meninas e o Gabriel se espantaram imediatamente com a ausência de espelho de verdade. Na nossa primeira saída turística, lá na 25 de março, Bel pegou um espelho (desses que dá pra se ver da linha do umbigo para cima) e me ordenou “compra isso agora”. Comprei. Tem sido meio diferente me ver com tanta clareza todos os dias. Aos poucos estou me acostumando com minha presença.

quando criança pensava que a menina do espelho não era eu, mas outra parecida comigo que vivia num lugar parecido com o meu. pulava de um lado para o outro para testar a capacidade desta menina em me imitar tão simetricamente

A escuridão alumiou algumas letrinhas

20 jan

Acabou a luz aqui no bairro. Ou seria na cidade inteira? Sei que a luz acaba muito por aqui. Mas como normalmente fico pouco em casa nem chego a me aborrecer. Renné sempre comenta sobre a falta de luz.

Estou sozinha no escuro. A tela brilha, o computador ainda tem um tanto de bateria. Quando ela ameaçar acabar eu corro e ascendo uma vela. Só que a vela é da minha novena. Então se eu a acender terei que fazer orações e não escrever posts… Opa, a luz voltou.

E acabou de novo, no tempo de se saltar um parágrafo. Nem aluí do lugar. Aluir é que nem arredar, mas arredar a gente faz com uma coisa sem vida e aluir é arredar a si mesmo. Arredar aparece mais no imperativo: “arreda isso aí!” E aluir em frases negativas, sobre alguém que viu algo errado e “nem aluiu do lugar”.

Fiquei três semanas sem escrever. Então estou deixando meus dedos digitarem sozinhos o que eles quiserem. Por isso está saindo esse trem sem sentido assim. A luz voltou de novo! Agora bem clarona, tá com cara de que dessa vez é “em definitivo”, expressão que minha mãe usa também para as coisas temporárias que prometem durar um pouco mais. No instante em que a luz acendeu, algumas pessoas gritaram “viva”, mas a chuva que cai abafou a festa.

Tenho deveras simpatia por Thomas Edison

Atenção, você prejudica o funcionamento de todo sistema

20 jan

Cheguei a São Paulo antes das sete da manhã. Relaxei com mais intensidade quando o ônibus parou. Este é o meu protesto contra os que descem com pressa inútil, e ficam esperando pela bagagem lá embaixo. Sou a última!

Metodicamente coloquei a mochila nas costas, peguei a minha sacola de livros e revistas (não sei porque levo tanta coisa à mão se costumo dormir, chorar escondido ou pensar sobre o sentido da vida em todas as viagens, principalmente as noturnas) separei o bilhete do metrô e o ticktizinho de retirar a mala. Então soltei o cinto e fui.

Sabe aquela cena cliclê de tortura em que a pessoa é quase afogada em uma bacia com água? Os sons paralisam, a imagem fica em câmera lenta, bem aflitivo… Então de repente o som volta, junto com o movimento… De novo água, silêncio. E assim sucessivamente… Enquanto eu atravessava o Terminal Tietê era como se minha cabeça estivesse dentro d´água. Sons pouco nítidos, calma e aflição…

Até que meu ouvido destampou. “Não impeça o fechamento das portas, isso prejudica o funcionamento de todo o sistema”. Era uma voz eletrônica. Esperei o próximo metrô. Chegou rápido. Entrei com muita habilidade levando mala, mochila e sacola e rapidamente encontrei um cantinho para me compactar junto com a bagagem.

Queria fotografar com os olhos a cara de tristeza do povo que, ao meu lado, ia para o trabalho. Talvez tenham saído bem cedo do “último subúrbio” para levar “leite bom para gente ruim” como diz o poema. Mas eram imagens pouco objetivas, insones, aquáticas.

Num estalado voltei mais uma vez a ouvir e as imagens se fixaram reais. “Por favor, esperem o desembarque… não fiquem na região das portas”, uma funcionária do metrô tentava empurrar ou puxar (dependendo do caso) quem estava entalado na entrada. Era a estação da Sé. Dentre os esmagados que conseguiram entrar identifiquei um que sorria.

Vamos acabar logo com isso

20 jan

Não há espaço para tanto blog em minha vida. Falo dos que escrevo e dos que pretendo logo começar a escrever. Por isso alguns precisam ser riscados do mapa virtual. Este aqui não deveria existir há um ano. Era para ter sido tirado do ar logo depois de meus chás de panelas. Mas ai ele foi ficando, ficando…

Até escrevi alguma outra coisa mais e então abandonei de vez. Renné dizia – não vai tirá-lo do ar? – Passou o momento, agora precisa que se feche outro ciclo; eu misteriosamente lhe respondia. – O nome disso é TOC, ele encerrava a discussão. Vou fechá-lo no centésimo post. Este é o de número 93. Fora isso, estou num momento de fechar ciclos… (me sinto tão misteriosa ao digitar reticências…) …

As coisas mais importantes não são coisas

30 mar

Tenho dificuldades em responder e-mails pessoais. Sabe estes e-mails lindos e sentimentais? Gosto. Mas fico paralisada quando recebo um. Penso, converso muito com a pessoa mentalmente, e não respondo. Ou só depois de muito tempo. Isso me deixa com vergonha e com angústia. No momento o e-mail que mais ronda a minha cabeça com “preciso responder” é um que recebi de Brenda. Era tão lindo que fiquei pensando, pensando e necas de responder.

Gosto tanto de Brenda. Ela mora em São Paulo e nunca nos encontramos aqui. Ela teve uma filha e eu ainda não a conheci. E quando alguém me pergunta de Brenda eu sei que esperam como resposta o nome de uma empresa jornalística e um cargo. Brenda não está trabalhando na área e me parece bem feliz.

É engraçado como as pessoas são interessadas nisso, onde as pessoas trabalham, o cargo que possuem e quanto ganham. Aqui em São Paulo então, ô, isso é bem forte. Não só entre os paulistanos, mas entre os compatriotas mineiros engolidos por essa cultura da competição sedenta.

Tenho um ano só de São Paulo. Poderia ter “tentado a sorte” aqui em 2005, mas não quis. Às vezes brevemente penso que se tivesse vindo naquela época hoje estaria melhor na profissão (não no sentido de ter mais satisfação, mas de ganhar bem mesmo). Penso isso quando me aperta o desejo de ajudar minha mãe, de lhe dar conforto e quem sabe umas pitadas de luxo que ela tanto merece. Adoro o que faço. Mas de vez em quando, por alguns segundos, eu me deixo contaminar pela agonia por ter grana, dinheiro guardado no banco dando aquela segurança ao coração, dinheiro para gastar com tanta coisa boa que dá sentido a vida de um  mastercard.

Mas este desespero sempre vem e passa. Em fases bem agudas, chego a me arrepender da escolha pelo próprio jornalismo. Por que não fiz Direito, a esta altura já teria passado em um concurso público, heim? Este remorso reverso dura um calafrio só. Enfim, claro que estes sentimentos me atingem. Só que eu sempre concluo que tudo é bem melhor do jeito que está mesmo. Rei, se me ouve falar isso, logo me compara ao Cândido do Voltarie.

Nossa, eu tinha mesmo que ter ficado esse tempo todo em Belo Horizonte. Para aproveitar mais aquela minha casa mágica. Para me apaixonar pelo Renné. Para ser professora na UFMG. Jamais poderia passar sem essa! Sempre reafirmo o quanto a experiência de ser professora foi importante pra mim. Conheci bem de perto pessoas incríveis, Brenda é uma delas.

Hoje vejo meus ex-alunos se virando na vida de adulto, muitos mudaram de BH, alguns são até meus colegas de firma. Olho para eles (pessoalmente ou no gtalk)  e vêm muita coisa à minha cabeça. Penso no que eles são, nos talentos, nas personalidades, nos jeitos de lidar com os problemas, nas vaidades e nos sonhos diferentes que cada um aparenta ter. Tudo misturado com lembranças cheias de querer-bem. A última coisa que recordo é onde trabalham e o cargo que possuem. Sei tanta coisa importante sobre eles que essas bobeiras não me afetam. Amigos não cabem neste tipo de classificação. #prontofalei.

"Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães é questão de opiniães... O sertão está em toda parte"

Lavandeira

1 mar

 Agora sim a minha vida vai melhorar! Acordei com esta frase na cabeça. Rezei minha novena com muito mais fé hoje. Era quase uma coisa assim “Santo Antônio, não vou mais pedir, você sabe o que tem que fazer, vamos lá”. Sou inquieta nos minutos e paciente nas semanas. Sofro com os afazeres das horas seguintes, espero quase-zen os acontecimentos maiores – estes que demoooram para desenrolarem.

Quando estou desanimada digo para mim “faz de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, às vezes custa muito a passar, mas sempre passa”. É do Guimarães Rosa. Digo a palavra vida não pensando na vida inteirinha, do berço ao caixão, mas num pedaço de vida mesmo, numa fase. Quando meu coração vai ficando angustiado mesmo, mais, mais e mais, chega um ponto em que a chave vira e ele passa de repente para o mundo da expectativa. Daí repito “nas mãos de Deus o meu destino, nas mãos de Deus o meu destino”. Faço isso umas cem vezes e os medos passam. Hoje de manhã acordei no mundo da expectativa, essa angústia de gosto bom. Abri os olhos na fé de que tudo pode sempre melhorar. Tudo mesmo.

Entre tanta coisa que me faz agora ter esperanças de que a vida vai ficar mais feliz uma bem importante é que compramos uma máquina de lavar. Ela ainda não foi entregue e as roupas extrapolam os limites do cesto. Por enquanto ainda é o caos. Mas logo poderemos passar uma semana lavando todo dia uma mala de roupas – de maneira simples, rápida e econômica. Até a maioria das peças estarem limpas e não sujas e esquecidas.

Aprendi a lavar roupa no ano passado. Alguém me alertou que deveria dividir por cores. Então eu separava todas as blusas azuis, lavava, cansava e desistia. E aí passava uma semana vestindo azul, outra de vermelho, outra de preto… A verdade é que passei um mês de azul. Dava preguiça de cavucar no cesto, pegava de uma vez as de cores irmãs que estavam por cima. Até que comentei isso no blog Tapete e me falaram que bastava separar as coloridas das brancas. Foi uma grande lição.

Tenho também um cesto de roupa suja imaginário, todo mundo tem. Vamos lavando aos pouquinhos, na medida da necessidade, às vezes cantando música triste, às vezes dançando Timbalada. Chega um dia especial em que a gente pode usar máquina para lavar um tanto de roupas (coloridas ou branquinas) de uma vez só. Este meu dia ainda não chegou, mas já fico feliz de pensar que dias assim existem.

A nossa máquina chama Maré - é da marca Consul. Agora deu vontade de cantar "quando a maré encher, tomá banho de canal quando a maré encher"